“Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?”, de Philip K. Dick

Comecei a ler ficção científica com o pé esquerdo: fui direto em Admirável Mundo Novo, do Aldous Huxley. Não que tenha sido ruim, afinal, foi até bem agradável, mas lembro de não ter sido uma leitura fácil. Chegou a ser bem complicado digerir aquela realidade estranha. Decidi me manter longe do gênero por mais algum tempo porque pensei “é, acho que ainda não sou tão maduro pra isso tudo” – eu tinha 14 anos.

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The dream must go on

Eu tive um sonho. Neste sonho, todos os seres se respeitavam mutuamente. Não eram, necessariamente, felizes, porém nenhum remorso, nenhuma mágoa, nenhum ressentimento pairavam sobre o ar. Todos cooperavam para que todos tivessem seu local próprio e particular de vivência. Era uma população harmoniosa.

I have had recurring nightmares
that I was lost for who I am
and missed the opportunity
to be a better man.

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2 DobleUve

dig - 14.03.2010

Alô? (…) Alô? (…) Alô!? 
Como que a senhora tá?
Cuidado pro Sinhô não escutar;
licença que vou palavrear:
Quem deixou a senhora voar como flô?

Encontra daí meu bisa,
chegou bem antes da tua partida.
Diz que penso e amo e tenho;
diz que sinto e sonho,
e que olhe também os que beiram teus.

Fui te dar adeus,
e a senhora já tinha ido.
Fui abraçar os teus 
e me saiu um sorriso.

Nos relances de visão
tu era alegre, toda orgulhosa.
Tua cria é todo dedicação,
é bondoso, gracioso, afável;
é caridoso, de um sorriso fácil.

Olha por aí teu filho
que ele tá sentindo saudade.
E vi teu choro,
caindo numas gotas constantes,
se perdendo pelo ar da cidade.

Mas, tia, não se acanhe, não se perturbe. 
Vem a calma um dia, 
vem a paz noutro dia
pra levar quase tudo embora;
só fica a tua lembrança preciosa.

E então,
quando eu também chegar por aí,
vou achar tudo mais são,
dizer: “Muito prazer!”
e sorrir, sempre a sorrir.


R.I.P.


Leia o texto, ouça Maria Gadú com Dona Cila:

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A Anfitriã e o Infiltrado

De duas uma: ou saía a anfitriã, ou saía o infiltrado. Uma gaiola, já não tão grande para somente um ser, tornara-se então um sufoco de convivência para uma delas. O humano parecia louco: ficava a olhar, que mais aprecia um vigiar constante, por um longo tempo ouvindo os gritos esganiçados das duas aves. A verdade, mas a verdade verdadeira, a realidade que o humano nem de perto conseguiria enxergar, era que o Golinha e a Graúna nunca haviam se dado bem, ou melhor, nunca se entenderam muito bem.
Vindo não se sabe de onde, chegando não se sabe quando, conseguiu perpassar seu pequeno corpo pelas grades da prisão da Graúna, e ali ficou não se sabe por quê. Mas agradou o humano, e por isso não foi enxotado dali. Há quem diga que a convivência das duas aves foi altamente pacífica, pois o Golinha sempre dormia pertinho, quase aconchegado, na Graúna. Há quem diga que cantavam na mais doce harmonia, seus suaves cantos formando uma melodia que agradaria aos mais exigentes e sensíveis ouvidos. Há quem diga mas aqui dito-vos nada mais que a realidade daquelas pequenas aves, encantadoras, sim,  quando soltas ao céu.

graúna-cartun 2

O Sol surgia ao longe. A Graúna já dava seus solitários pios, enquanto o Golinha repetia o ato de sempre sair da gaiola à luz dos primeiros raios de Sol para trazer não-se-saberia-o-quê, e voltava para a gaiola, recebendo as más-vindas palavras cantadas e rimadas da Graúna. Já virara rotina, mas Graúna ainda alimentava a esperança de que a Coruja ou o Gato arrancassem a cabecinha do Golinha. E vinham os arrodeios:

Graúna: “Te manda daqui, ave despenada.
Te manda daqui ou te quebro a asa!”

E vinham os rodopios:

Golinha: “Vem comigo, libélula encorpada.
Vem comigo! Vamos ganhar a estrada!”

E já vinha o humano, como se apreciasse aquele matadouro:

Graúna: “Já disse que não quero, anão petulante.
Saia daqui, vá buscar outra amante.”

Golinha: “Te trouxe esta doce minhoca do Norte.
Aceita como desculpas e vem comigo tentar a sorte.”

Quase sempre era a mesma conversa, as mesmas insistências, as mesmas opiniões. O mais estranho, nem Graúna nem Golinha sabiam o mais misterioso motivo, era que o humano jamais apresentava alguma reação negativa à discussão dos dois, pelo contrário, apreciava tanto quanto à sétima sinfonia de Beethoven.
Algo que deixava Graúna num estado irritadiço, era sempre pensar ou imaginar que logo um minúsculo pássaro, especialmente o Golinha, pudesse de alguma forma atraí-la. Mas que absurdo!, pensava. Como pode “aquele” Golinha cogitar que uma graúna tão pomposa quanto eu poderia fugir com ele… que absurdo… E este pensamento marginal lhe veio à cabeça várias outras vezes, sem saber como, sem saber por quê.
Num dia qualquer para mim, para você, e mais alguém, o Sol foi raiando e toda ave foi cantando. Não sabia por quê, mas Graúna sentia-se incrivelmente bem, como se naquele dia acontecesse algo que ela havia muito esperado. Com o seu canto às alturas, aparentemente muito feliz sem saber por quê, finalmente notou algo diferente ao seu redor. Algo havia mudado, mas não sabia o quê. Prosseguiu seu canto magnífico por todo o seu dia maravilhoso, esvoaçando pralá e pracá feliz da vida, mesmo sabendo que o humano que sempre admirava seu canto parecia, agora, nervoso com algo à primeira vista sem nenhum fundamento.
Não propositalmente, Graúna teve uma leve lembrança de uma coisa muito pequena que cantava com ela, e impressionou-se ao perceber de suas saudades por um bichinho até engraçado que tinha uma gingada bem estranha. Onde está essa coisinha? Será que o Gato comeu ele? Não sabia. E o humano saiu de sua presença com as mãos na cabeça como quando ouvia à terceira sinfonia de Beethoven. Foi aí que se deu o incidente mais incrível na vida de uma ave aprisionada.
Um bando incrivelmente numeroso de pequenas avezinhas escancarou a janela apenas encostada em frente de onde situava-se a gaiola da Graúna. Graúna simplesmente interrompeu seu canto e observou atenta cada passarinho daquele bando. O bando rodeou sua gaiola, envolveu-a numa escuridão de avezinhas esvoaçantes, e Graúna lembrou-se como um cântico da nona sinfonia de Beethoven, sem saber o que poderia acontecer.

Graúna: “Te manda daqui, ave despenada.
Te manda daqui ou te quebro a asa!”

Veio, então, ao seu encontro, o que parecia a menor daquelas avezinhas.

Golinha: “Vem comigo, libélula encorpada.
Vem comigo! Vamos ganhar a estrada!”

E tudo foi claridade quando o bando de aves abriu alguns espaços para a luz vinda da janela. Já não havia gaiola. E Graúna percebeu o quanto era feliz agora, e o quanto aquela coisinha poderia lhe fazer feliz.
Parecendo ouvir ao estardalhaço da gaiola batendo no chão não-se-sabia-como, o humano apareceu e urrou de terror quando as avezinhas voaram quase todas na direção dele, e aquilo com duas patas enormes e desajeitadas saiu correndo de onde estava. Todas foram atrás do humano fazer não-se-sabia-o-quê, menos um em especial, aquele que voava ao lado da Graúna para o horizonte, tentar a sorte nas terras do Norte.

Leia o texto, ouça P!nk com Please Don’t Leave Me:

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Baseado na crônica Os Golinhas de Milton Dias.
Cartum original do desenhista Henfil, Graúna.

Nova vida, nova jogada

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Um sonho relativamente perturbador o fez sobressaltar-se enquanto dormia. A vida é cruel, ele sabia, mas a pressão do ano atual deixava seus sentimentos à segundo plano. Provavelmente não o ideal, mas quem sabe do ideal para si? Ele, com certeza, não. O ódio e o amor não eram mais tão presentes, e isso o fazia pensar e sonhar com o que não desejava. De repente, surpreendeu-se pensando no que ocorrera havia algumas horas.
Os dedos deslizavam suavemente, delicadamente por alguns fios de cabelo, indecisos entre o liso e o cacheado. Os olhos dispersos do ver e não ver direcionados ao além, sugeriam seu estado pensativo, muito constante ultimamente, mas sem uma definição específica de onde poderiam estar seus motivos de sorrisos relanceados ou olhos lacrimejados. Provavelmente, ruídos longínquos poderiam afinar o espaço de possibilidades de em que poderia estar pensando. “Não é medo, é só saudade.” Mais uma vez naquele dia o ato se repetia, refletia a cena que não demoraria a ser vista somente no palco. Macbeth e suas lendárias maldições que chegam de todos os lados, mas no meio da loucura e da tristeza, ele sabia, a esperança não morre, a felicidade no final é sempre mais explosiva.
De repente lembrou-se de alguns versos por ele mesmo pensados. Pensados. Não foram escritos. Não foram recitados. Não foram representados. Mas era o fato de lembrar-se, e visualizar cada letra, e escutar cada fonema que tudo aquilo simplesmente existia. E repetiu, em seu silêncio de reboliços.

Se dizes que sois infeliz 
Não digas que foi por um triz.
Reflitas tudo o que fiz.
Pense, mude e morra feliz.

E do sono, veio a calma do recomeço. Tudo o que ele queria, era que a pessoa certa soubesse de tudo. Antes, agora e depois.

Leia o texto, ouça Billie Holiday com Blue Moon:

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